Os Miseráveis e a Revolução Russa – Literatura e História

 Entre todas as perguntas endereçadas aos professores de História, uma se destaca não só pela recorrência, mas também pela carga de desconsideração e, até mesmo, de desrespeito que a acompanha: Para que serve o estudo da História? Essa pergunta choca ao mesmo tempo em que provoca transtornos ao trabalho do professor, já que ele deverá dispor de tempo para respondê-la.

Marc Bloch (1886-1944), um dos maiores historiadores de todos os tempos, escreveu como primeiras palavras de uma importante obra sua o seguinte: “Mesmo que julgássemos a história incapaz de outros serviços, seria certamente possível alegar em seu favor que ela distrai (...) Pessoalmente (..) a história sempre me divertiu muito”.

Claro que qualquer cidadão, minimamente comprometido com o futuro da civilização, sabe que a ciência histórica cumpre outros importantes papéis nas nossas relações sociais. A História contribui para justificar diferentes visões de mundo; auxilia na compreensão do passado, no entendimento do presente e na elaboração de propostas para o futuro; colabora para o desenvolvimento de formas de reflexão da vida social; serve para compreender o desenvolvimento das sociedades e dos valores da humanidade; por fim, a História fornece as ferramentas que permitem ao historiador construir e divulgar conceitos voltados para a promoção de vida mais plena e digna para toda a humanidade.

Assim é; e é bom que assim seja sempre... diversão, distração, promoção de conhecimento e promoção de humanidade.

Foi pensando em conciliar essas questões que os professores de nosso Colégio, que trabalham em duas das quatro áreas do conhecimento – Linguagem e Ciências Humanas – , decidiram oferecer aos nossos jovens de 8os e 9os anos aulas de História tendo a Literatura como documento histórico. Isso mesmo. O livro “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, serviu de documento para uma aula de “Revoluções Liberais do Século XIX”; assim como o tema “Revolução Russa” serviu como pano de fundo para ilustrar e contextualizar a obra “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.

Passeando pela França de Napoleão Bonaparte e de Carlos X, buscamos as causas mais evidentes da miserabilidade, das desigualdades e injustiças produzidas por uma revolução, a qual marcou a ruína de um mundo (Antigo Regime) que acabou substituído por um novo ordenamento sócio-político e econômico (Liberalismo). A saga de Jean Valjean, homem de vida sofrida, injustiçado e vitimado pela violência do fanatismo revolucionário produziu figuras humanas como o inspetor Javert, personagem tão sedenta por justiça quanto obcecada pelos preceitos de uma Revolução, cuja utopia embebedava as mentes mais racionais do século XIX. Tristes jornadas as que assolaram as vidas de Javert, de Jean Valjean, da jovem Fantine e de sua filha Cosette.

Do mesmo modo, nossos estudantes do 9º ano foram buscar na Revolução Russa, de 1917, os instrumentos teóricos (históricos) necessários para compreensão daquilo que se passou com os animais da Granja do Solar desde que um velho porco, o Major, decidiu assaltar o poder, até então controlado pelo Sr Jones. Na obra de George Orwell, um bicho chamado Napoleão representa um personagem histórico – Josef Stálin –, cujo personalismo paranoico resultou na montagem de um aparelho de Estado totalitário, opressor, perseguidor e sanguinário.

Na França, como na Rússia, o crescimento econômico – aquilo que chamam desenvolvimento – acabou sendo atingido à custa de milhões de vidas ceifadas em nome de ideologias, as mesmas que, em tempos passados, serviam para alimentar utopias, sonhos de construção de um mundo mais tolerante, justo, livre e igualitário.

Importante ressaltar que os nossos jovens passearam pela França e pela Rússia em momentos de efervescência revolucionária. Viajamos no tempo e no espaço; conhecemos um bocado de personagens fictícios e outros reais, aprendemos, contextualizamos, relacionamos mundos, pessoas e fatos... Assim, nos distraímos enquanto trabalhávamos com as ciências.

 

 

 

 

Se a História não serviu para nada, ela, pelo menos, nos divertiu; e se a Literatura também não tiver outra função, podemos alegar em seu favor que ela nos livra da solidão, do isolamento. História e Literatura cumpriram seus papéis e nós estamos felizes!

 

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